A Alemanha inaugurou recentemente uma clínica para crianças e jovens dependentes digitais. Uma equipe multidisciplinar do hospital oferece atividades que deveriam fazer parte do cotidiano, como respirar com calma, olhar nos olhos, dialogar, reconhecer o próprio corpo, se movimentar. Especialistas em infância relatam que adolescentes em abstinência digital chegam a passam noites sem dormir, choram, gritam, ficam extremamente irritados. E, aos poucos, são capazes de reaprender a conversar, brincar, interagir, durante o processo de desintoxicação digital.
No ano passado, a Rede Globo exibiu histórias de jovens viciados em telas e o poder desse vício sobre eles. Uma delas era a de um garoto de 15 anos que ganhou o primeiro celular aos seis anos de idade dos pais, para que eles pudessem resolver suas tarefas com mais tranquilidade. O pai do adolescente com vício grave mostrou imagens das mais de 40 mordidas que levou do filho durante crises de abstinência de tela.
O que é burnout digital
Embora o termo ainda não conste formalmente em manuais diagnósticos, ele tem sido usado por clínicos e pesquisadores para descrever um estado de exaustão mental, emocional e comportamental relacionado ao uso excessivo e desregulado de telas, redes sociais e mídia online.
No burnout digital, o que começa muitas vezes como diversão ou entretenimento pode evoluir para uma sobrecarga silenciosa: estímulos incessantes, expectativa de resposta imediata a mensagens, comparação social em redes e atividades que competem com sono, interação real e outras experiências essenciais para o desenvolvimento infantil.
Crises de ansiedade paralisantes, agressividade intensa e episódios de automutilação são outros sintomas graves que podem levar crianças e jovens à internação. Um estudo publicado na revista Child Psychiatry and Human Development analisou dados de mais de 1.100 admissões em unidades de psiquiatria pediátrica antes e depois da pandemia de Covid-19. Os pesquisadores identificaram que problemas associados à comunicação online, dificuldades em estabelecer limites e conflitos decorrentes do uso digital foram responsáveis por uma parte significativa dos casos, incluindo aqueles que exigiram internação.
Sinais que podem indicar risco
- Queda no rendimento escolar
- Irritabilidade persistente
- Dificuldade de concentração
- Isolamento social
- Insônia
- Comportamentos compulsivos
- Explosões emocionais
Esses sintomas podem ser confundidos com outros transtornos, o que dificulta o reconhecimento precoce, mas a combinação deles associada ao uso intenso de tecnologia merece atenção.
O que a ciência mostra
Pesquisas independentes já demonstram a relação entre uso intensivo de mídias digitais e bem-estar psicológico prejudicado. Estudo realizado com quase 14 mil crianças com idades entre 9 e 12 anos e publicado em 2025 pela revista científica Pediatrics indica que crianças que já têm acesso a celulares aos 12 anos apresentam maior risco de ter sintomas depressivos, insônia e obesidade, sobretudo quando não há supervisão de tempo de uso.
Além disso, revisões sistemáticas sobre tempo de tela e saúde mental em adolescentes mostram que uso excessivo está associado a sintomas de ansiedade e depressão, especialmente entre meninas.
O alerta dos especialistas
O pediatra Daniel Becker, referência em saúde infantil, tem sido enfático: “uma criança exposta sem controle ao TikTok está sujeita a prejuízos físicos, mentais, emocionais e sociais seríssimos”, alerta, destacando que quanto mais tempo em redes sociais, maior a probabilidade de sintomas como tristeza e dificuldades de desenvolvimento emocional.
Iniciativas como o Movimento Desconecta, criado por mães preocupadas com a hiperconexão de crianças e adolescentes, também reforçam a necessidade de limites e de reconectar a infância com atividades reais, que valorizem o brincar, a natureza e o convívio presencial para diminuir os riscos à saúde mental.
Como pais e responsáveis podem agir
- Limitar tempo de tela diário, principalmente à noite
- Estabelecer rotinas sem dispositivos pelo menos 1 hora antes de dormir
- Estimular atividades offline como esporte, leitura e brincadeiras ao ar livre
- Diálogo aberto sobre uso da tecnologia e sentimentos
- Se os sintomas persistirem mesmo com limites mais rígidos, buscar avaliação de um psicólogo ou pediatra especializado em desenvolvimento infantil pode ser essencial.
Por que este tema importa agora
Em um mundo cada vez mais conectado, crianças e adolescentes estão crescendo com acesso precoce a tecnologias que, se não mediadas, podem impactar o cérebro em desenvolvimento, relacionamentos e regulação emocional. Embora o burnout digital ainda um conceito em construção, já há evidências científicas e casos reais que mostram seu potencial de causar sofrimento profundo quando não há limites e suporte adequado.
FONTE: MSN




